quarta-feira, 17 de novembro de 2021


Vivi via um V invertido - um V - quando pequena e olhava para o pai lá no alto. Seu pai. As pernas de seu pai inVertiam o V. E ViVi passava sob elas. E olhava. E voltava, se abrigava sob elas. Uma cabana de índio de filme de Velho oeste. Velho - com V. Um telhado de duas águas - também pode sê-lo. Seu pai era grande - com G. Era noVo - com V de avô, de Vasco, de Verde. V de Vértice. Seu pai era um Vértice, uma seta apontando para o Alto, Além. O A de Além é como um Vértice, um V inVertido. Vertente. Um Vale. Água Vertendo. Um Vórtice.  Vertigem. Vertigem do Vinho - Verde - que o pai Verte no copo, na taça que parece um V, mas não inVertido. ViVi - com V, com dois Vs - Via, ViVia - também com dois Vs.

ViVi imaginava seu pai sempre joVem - com V - pele macia, cabelos Vermelhos - também com V -, um leão. Todo Vértice.

O leão rugiu, reinou na saVana. Um rei. E enVelheceu, Vergou. E, com a fraqueza que aparecia, também apareciam mais teimosia, determinação, Vontade.
Vivi Viu a Velhice, o pai Velho leão, menos Vermelho, juba descorada. Verteu algumas lágrimas. Virou algumas taças. ViVi ViVeu e Viu seu pai ViVer. E Morrer - com M de Mãe, de Mar, de AMor. O velho leão, trôpego, teimoso. Solar em seu ocaso.
O tempo Voou Veloz, leVou Velho o joVem leão Vermelho. Vivi ViVeu. ViVe.
O tempo Veloz Voou e leVou o para sempre joVem leão Vermelho. Velho, joVem, Vértice.
V de Vontade. V de verdade.

terça-feira, 9 de novembro de 2021



Chovia muito e Bárbara estava eufórica. Chorava e gargalhava em arroubos alternados. A rua estava vazia e, protegida sob a larga marquise do velho prédio comercial no Centro, ninguém percebia seu estado. Uma cortina de grossos pingos e névoa úmida a protegia de improváveis olhares dos raros passantes que corriam fugindo do temporal.

Tinha sacado a metade da conta conjunta que mantinha com a companheira, a metade dos investimentos que passara para a conta na noite anterior e a metade da poupança. Não era uma fortuna, mas também não era de pouca monta. Sacou, abriu uma nova conta em seu nome e depositou o dinheiro.
Finalmente tomara coragem de decidir. Nem sabia bem como isso se deu - a decisão. Mais que decisão. Era um saber o que queria... ou desejava. Um saber.
A filha avisou que dormiria na casa do namorado. Foi como uma senha. A conversa, o anúncio, o adeus seria hoje. Nesse dia de chuva forte.
Os minutos se acumulavam: 10... 30... 50... A chuva não arrefecia e Bárbara - a roupa encharcada, apesar da marquise - começou a sentir frio. Já passava das dezoito horas e previa a possibilidade de alagamento pelo caminho. Tentou acenar para os raros táxis, mas todos passavam cheios. A bateria do celular estava por um fio. Enviou uma mensagem para Jurema: "Tentando um transporte. Bateria fraca."
A mensagem anterior, às dezesseis horas, fora: "Precisamos conversar. Não agende nada para hoje."
De algum modo, ainda gostava de Jurema e acreditava que ela merecia consideração.
Não havia uma briga, um incidente, uma "gota d'água que faltava". Não se tratava disso.
Lavou o rosto na chuva decidindo ir até à estação de metrô mais próxima. Foi caminhando como podia, rente às paredes, portas, vitrines, tentando escapar das poças maiores que cresciam exponencialmente minuto a minuto. Precisava ser rápida para conseguir chegar à estação antes que o entorno alagasse. Faltava pouco.
Relâmpagos acendiam o céu turvo. Os estrondos soavam dentro dos humanos que ousavam tentar ir para casa. Faltava pouco.
Atravessou a Rio Branco com passo firme.
Próximo à entrada para a estação, uma mãe e seu bebê ensopados atravessaram seu caminho. Tentou desviar. Escorregou caindo direto numa poça em torno de um poste metálico. Tombou após um ligeiro tremor provocado por um choque elétrico potente. A cara enfiada na água.
Alguns raros transeuntes pararam perto. Sem ousar pisar na poça. Sem ousar tocá-la. Um homem gritou pedindo ajuda enquanto mais um trovão ensurdecia a cidade.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Amélia


Um som grave vinha da entrada da baía. Amélia não sabia se o navio entrava ou saía. O ar noturno se deslocava suave. Vinha úmido, fresco, perfumado de mar. Na casa, todos permaneciam acordados. Cada qual no seu canto. Alertas. Aceitar o sono era difícil. Não que os dias fossem mais fáceis. Amélia frequentemente desejava que as noites fossem mais longas. Gostava do apito profundo, da brisa fria, do silêncio e da escuridão. Preferia que os outros dormissem e que apenas ela vagasse flutuando em vapores etílicos. Às vezes, era como se o silêncio e a escuridão varressem dela vergonha, culpa, inibição. Veloz. Pulsava poeta noturna. Queria noites mais longas. 

As aranhas vinham pelos reflexos dourados que a mínima luz da vela acesa no canto mais negro da varanda tecia pelas paredes de pastilhas de vidro entremeadas de líquen e musgo. Às vezes, elas eram maiores que um esquilo. As lagartixas se fartavam quando isso acontecia. 

Amélia vestia um velho robe de seda verde com estampas de folhas pretas que pertencera à sua avó. Estava guardado em um armário - intacto. Deixava os longos cabelos castanhos cairem pelas costas. Vez por outra, uma lagartixa parava sobre a mesa, ao lado do copo de Porto, encarando-a. Imaginava o dia em que seria surpreendida por uma pergunta. Frequentemente, ficava tentada a coçar a cabeça de uma ou outra mais delicada. Mas, desde a cena de destroçamento de uma grande aranha peluda por duas pequenas osgas  filhotes, tem afastado esse impulso com determinação.

Quando sua avó era jovem, esses animais não existiam. Apenas passarinhos, abelhas e pequenas lagartixas de pele macia ousavam invadir a varanda onde a velha Amélia gostava de tomar o café da manhã. Também não havia o emaranhado de trepadeiras de flores azul néon praticamente encobrindo toda a vista. Na verdade, uma proteção. As trepadeiras tomaram vorazes o velho condomínio de mais de vinte andares. São como um escudo.

Nas últimas décadas a variedade vegetal e animal tornou-se extremamente opulenta. Radiação? Vazamentos tóxicos? O mundo mudou muito rapidamente. Cheio de novidades.

Amélia é nome antigo. Nome de sua avó - mãe de seu pai - e da avó de sua avó. A família cultiva nomes antigos. 

A semelhança física entre a atual Amélia e sua avó é notável. Faz algum tempo que só se encontram virtualmente. E os encontros têm que ser rápidos. Para não serem detectados. Isso se repete há cerca de três anos. Amélia voltou para a cidade incógnita. Não foi difícil se alojar no apartamento. Poucos vizinhos. Raríssimos os de outra época. Dois apenas. Um morreu subitamente dias após sua chegada.  Uma velhinha chorou ao vê-la, achando que a outra Amélia tinha retornado do futuro. Há boatos de que isso agora é possível. Ninguém levou a velhinha a sério. Ninguém a escutava. E ela acostumou-se a não insistir.

Amélia preferiu não desfazer o mal entendido. Não deveria fazê-lo.

Como ela, seus companheiros de jornada eram discretos, quase imperceptíveis em seus movimentos e conversas. Evitavam os corredores e escadas, escalando a vigorosa trepadeira no meio da madrugada. Silenciosos.

Ninguém imaginava que o futuro de tantos era traçado naquele estranho canto do mundo.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Elvira


Elvira estava no banheiro fazendo arquitetura imaginária. Cada azulejo das paredes era a fachada de um cômodo de apartamento no condomínio com enorme pátio interno cujo chão era o piso preto do toalete.  Antes, ela leu um pouco a enciclopédia do corpo humano e deliciou-se com uma página tripla mostrando um abdome grávido. Nunca tentaram lhe enganar com a cegonha. Ela se orgulhava disso como mérito próprio. 

Acabou de tomar seu potinho de Yakult. Achava muito doce, mas apreciava o azedinho que acordava a língua. 

Depois de muito obrar num estilo japa cyber punk avant la lettre, checou se o aquecedor estava aceso e encheu a banheira amarela. No corredor, sua mãe indagou se estava tudo bem. Elvira respondeu que tomaria seu banho. Já quase transbordando, desligou a torneira e o aquecedor. Do outro lado da porta, sua mãe imaginou a banheira cheia de grude de talco, perfume e creme rinse. Partiu sem reclamar antecipadamente. Afinal, era sábado. 

Elvira mergulhou e encontrou Jacques Cousteau em meio a corais, peixes palhaços e um tubarão martelo ancião. Entre agudos impossíveis, cantou numa língua inexistente, entremeada por palavras em inglês, a música do rato amigo do Michael Jackson e mergulhou Topo Gigio ao encontro de Costeau.

Alguém bateu energicamente na porta.

Seu pai chegara do consultório com visitas. Trouxe risoles de camarão. Muitos. Elvira não gostava de risoles nem de camarão, mas adorava o risoles que o pai trazia aos sábados. Já era hora do almoço e as visitas comiam e bebiam muito.  Vinho e cerveja foram derramados na toalha de mesa branca. Sua mãe fez a cara entre amarga e azeda.

Elvira riu pra dentro enquanto olhava diretamente nos olhos da mãe. Afinal, não foi ela quem sujou a toalha. Imaginou um futuro próximo onde a mãe reclamaria das visitas, da bebedeira, da falta de educação e do trabalho de clarear as toalhas de mesa que teimavam em permanecer manchadas. Alguém perguntou pela vizinha perdida do 301. A avó de Elvira fez uma cara amuada. Elvira já vira essa cara noutras perdidas escutadas pela velha. Um amigo do pai comentou a burrice do general presidente. Alguém imitava a já meio esquecida Rita Pavone na TV ligada na sala de estar.

Quase cinquenta anos depois, Elvira estava lendo o jornal no aplicativo do tablet no banheiro de seu quarto. Sua filha batia à porta vigorosamente reclamando que alguém ocupara o outro e ela precisava assistir a aula que começaria em menos de cinco minutos. Precisava usar a privada e lavar a cara com água fria. Com a pandemia, o banheiro de serviço virara área de quarenta de compras. Elvira interrompeu a leitura, fez sua higiene íntima e saiu com presteza. Sua filha entrou veloz. Súbito, gritou horrorizada diante do tablet encontrado sobre a caixa do vaso sanitário. Tinha nojinho de que a mãe levasse o aparelho para o recinto. Ninguém na casa sabia o quanto a reclamona apreciava copular a tergo usando todos os orifícios possíveis. 

Elvira chegou na cozinha e viu a mesa repleta de migalhas de pão. Berrou contra os retardados que faziam isso e não limpavam a própria sujeira. Em geral, era o marido ou o filho. Ou ambos. Às vezes, os ameaçava com histórias envolvendo formigas.

O filho aproveitou para lhe lembrar que não deveria usar a palavra retardado publicamente. Ela retrucou que não estavam em público. Ele citou o volume da voz dela como algo que tornava duvidosa a privacidade da conversa. Ela se fez de surda.

O café perfumado estava enchendo a cafeteira e o leite já tinha sido aquecido. Elvira passou a escovinha mágica sobre a superfície da mesa. Gritou que o café estava pronto. Lembrou que era muito cedo para gritar. A filha gritou que alguém lhe levasse a bebida. Gritando, lembrou-lhe que era muito cedo para gritar. Sem saber o motivo, Elvira pensou no encabulado Topo Gigio, num livro de Umberto Eco cujo protagonista era um bibliófilo e em Feltrinelli. Num instante, as Brigadas Vermelhas, o IRA, o ETA e o Baden-Meinhoff passaram explodindo em noticiários remotos. Os homens sentaram sorridentes e sonados. Elvira mandou alguém levar café para a menina que já estava assistindo sua aula online. O pai voltou dizendo que o professor não parecia acordado e que esse negócio de aulas online era muito louco. Elvira contou sobre os números da pandemia. O celular tocou. A irmã de Elvira fora hospitalizada com a peste. Só restava aguardar, disse o interlocutor. Smartphone desligado, Elvira imediatamente fechou sua boca com café quente. Tornou a encher a caneca. A música do rato amigo do Michael Jackson tocou na cabeça dela derramando um murmúrio estranho por sua boca cheia de café. Uma súbita vontade de comer risoles de camarão lhe perturbou o desjejum. E nem era sábado.


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

banal






 
Nestes gestos tão banais
Um quê de eternidade
O corpo sob o sol
A luz desenha o instante
Agora o que vejo logo foge
Mas das retinas à alma
Fica o gosto de um além
Além do tempo
Além de mim, além de ti
Além de nós
Um vislumbre de eternidade
 
Não se engane
Se perde tanto a cada instante
Esqueça disto ou mantenha em mente
Não se consuma em lamentos
A dor persiste
Mas em cada instante
Tente alcançar o infinito
É só o que temos
A certeza do agora
 
Não tranque a porta
Não tranque a alma
Mude a rota
Desencaminhe-se
Para alcançar o imperdível do instante
É tão difícil não se perder de tudo
De si
Do tempo
Tão raro

segunda-feira, 24 de junho de 2013

NOTAS SOBRE O INVERNO DE 2013 - O imaginário nas manifestações de 2013

O PT controla as forças de esquerda — quer dizer, a maioria das organizações, organismos e pessoas de esquerda — através deste poderoso significante: ESQUERDA. Palavra mágica!
O significante ESQUERDA está associado à memória da luta contra a ditadura civil-militar que teve início em 1964 e ao imaginário constituído em torno desta luta.
Enquanto estes grupos e pessoas estiverem IMERSOS neste imaginário, serão controlados pelo PT, que é o partido (agremiação política) que lidera o partido da ordem.
Foi só o PT ameaçar com o fantasma do GOLPE DE DIREITA, que a esquerda, temerosa, foi mobilizada a sair de campo. E mais: mobilizada a fazer declarações de amor à presidenta.
A esquerda democrática, enquanto for servil ao significante ESQUERDA, será estéril, pilotada pelo partido da ordem, através do PT. Não conseguirá liderar nada além de seus integrantes... quiçá nem eles. Não terá a menor condição de construir projetos, de articular consensos. Estará a reboque do PAI (PT).
O interessante é que a direita ideológica, ao contrário que o MESTRE de ESQUERDA costuma bradar e que seus servos costumam crer, é fraca. Inconsistente. Gelatinosa. As forças democráticas de esquerda abandonam largas massas “disponíveis” ao léu (inclusive à direita ideológica, ao conservadorismo de todos os matizes) porque se curvam aos fantasmas associados ao imaginário da luta contra a ditadura, o qual a constitui, ao qual está presa e submetida. Enquanto essas forças (organismos políticos), formadores de opinião e intelectuais não conseguirem se deslocar minimamente em relação à sua autoimagem, ao significante ESQUERDA, ao imaginário da luta contra a ditadura, estarão condenados à servidão ao Mestre da Esquerda.
Escrever o presente amarrados aos significantes do passado é uma dificuldade das maiores.
É impossível fazer tábula rasa, partir do zero. Mas também é impossível ser minimamente contemporâneo atado pelas amarras que são esses “significantes do passado”. Trata-se da arte de fazer do significante “trampolim” (momento) e não “amarra” (monumento). Isto é o que está em questão.
*
QUEM É DIREITA? QUEM É ESQUERDA?

.O EX-PRESIDENTE LULA E O ENTÃO CANDIDATO A PREFEITO DE SAMPA, HADDAD, POSAM PARA FOTO COM PAULO SALIM MALUF (lembram do slogan “O povo não esquece... Maluf é PDS!”?) SELANDO UMA FÉRTIL ALIANÇA
.O GOVERNO APOIA RENAN CALHEIROS (PMDB, EX-PRN, TROPA DE CHOQUE DE FERNANDO COLLOR QUANDO NA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA) À PRESIDÊNCIA DO SENADO
.A MINISTRA GLEISE HOFFMANN (PT) E A SENADORA KÁTIA ABREU (PSD, EX-DEM, EX-PFL, LÍDER NACIONAL DOS RURALISTAS) SE UNEM CONTRA OS DIREITOS INDÍGENAS  
.CÓDIGO FLORESTAL DE ALDO RABELLO (PC do B) É UM RETROCESSO HISTÓRICO DE PROPORÇÕES DANTESCAS
.ALIANÇA POLÍTICA PÕE PASTOR MARCOS FELICICIANO (DO PSC, FIGURA QUE NÃO CESSA DE DAR DECLARAÇÕES RACISTAS, HOMOFÓBICAS E MISÓGINAS) NA PRESIDÊNCIA DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E MINORIAS – UM ACHINCALHE! CONSEGUIU APROVAR A “CURA GAY” NA CDH
.GUILHERME AFIF (PSD), VICE DE ALKMIN (PSDB) NO GOVERNO DE SÃO PAULO, TEM STATUS DE MINISTRO NO GOVERNO DILMA (PT, EX-PDT) COMO SECRETÁRIO DA MICRO E PEQUENA EMPRESA
.A POLÍCIA DO GOVERNADOR SÉRGIO CABRAL (PMDB, ALIADO DO GOVERNO FEDERAL) PERSEGUE E ATACA MANIFESTANTES E A PRESIDENTA FAZ UM PRONUNCIAMENTO ANÓDINO (PEÇA DE MARKETING EXEMPLAR!) NO QUAL AFIRMA DE PASSAGEM O ÓBVIO ULULANTE: QUE A REAÇÃO POLICIAL DEVE SER EQUILIBRADA
.DURANTE A CPI DO CACHOEIRA, O DEPUTADO CÂNDIDO VACAREZZA (PT) É FLAGRADO MANDANDO UM SMS TRANQUILIZANDO O GOVERNADOR SÉRGIO CABRAL (PMDB), GARANTINDO QUE O MESMO NÃO SERÁ CONVOCADO PARA A CPI
.O GOVERNO SEGUE POLÍTICAS QUE FORTALECEM A TRANSFORMAÇÃO DO BRASIL EM UM PAÍS DE COMMODITIES
.PRESSIONADO POR SEUS ALIADOS CONSERVADORES, QUE PÕEM EM QUESTÃO A SEPARAÇÃO ENTRE ESTADO E RELIGIÃO, O GOVERNO EXONERA O INFECTOLOGISTA DIRCEU GRECO DA DIREÇÃO DO DEPARTAMENTO DE DST/AIDS E HEPATITES VIRAIS – DA DÉCADA DE 80 ATÉ ENTÃO, AS POLÍTICAS DE PREVENÇÃO E CONTROLE DA AIDS NO BRASIL VINHAM SENDO BEM SUCEDIDAS JUSTAMENTE PELA AUTONOMIA DA “SAÚDE PÚBLICA” EM RELAÇÃO À RELIGIÃO

É POUCO? PRECISA DESENHAR? 

Isabel Guimarães

Rio, 24/06/2013

NOTAS SOBRE O INVERNO DE 2013

“Menina, fica quietinha, senão o lobo mau vem te pegar!”
Quem não teve alguém em sua infância que lhe fizesse tal ameaça com a cara mais cândida do mundo?
“Estou avisando! Quem avisa amigo é! Se não se comportar, ele vem lhe pegar!”
“Mas você não pode espantar ele, vovó?”
“Ele é muito forte e bravo! Não posso fazer nada! Só lhe avisar!”
E a criaturinha fazia o que lhe mandavam sem pestanejar!
Bem...
Há menininhas mais espertinhas que, mais cedo ou mais tarde, percebem que toda vez que querem que elas aceitem quietinhas algo que elas detestam o lobo mau é lembrado. Às vezes, elas “fazem escondido” e enganam o lobo mau – sacam que, no mínimo, ele não é tão esperto quanto as vovós dizem. As menininhas acabam chegando lá: compreendendo que o lobo mau que a vovó diz temer, na verdade, é o melhor aliado da velhinha quando a mesma quer empurrar aquela comida horrorosa goela abaixo da menininha: “É pro seu bem, meu amor!”
As menininhas crescem e descobrem que no mundo muita gente quer lhes tratar como lhes tratavam suas avós – invocando o famigerado lobo mau.
Bem...
Em geral, diferente do tempo com as vovós, jamais é para o bem delas... E, mesmo que alguém nisto acreditasse – que é para o bem das menininhas –, elas sabem que a escolha sobre o seu próprio bem é delas, de cada uma delas...
Ex-menininhas podem ficar muito... muito zangadas por causa disso, por lhes infantilizarem... por lhes considerarem tolas o suficiente para crerem no todo poderoso lobo mau... sobretudo por lhes considerarem incapazes de escolhas próprias.
Dá para entender?

Marx, aquele pensador barbudo do século XIX que muito influenciou o século XX, tantas vezes invocado – para o bem ou para o mal –, diz muito bem dito, no seu “O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte”, que em tempos críticos os fantasmas emergem de suas tumbas e assombram os humanos. Um tempo, um povo, uma pessoa... todos temos os nossos fantasmas com os quais nos havemos em sonhos ou pesadelos, dormindo ou acordados. Quando nossos pés tocam um novo solo, nossos fantasmas se agitam, provocados por nossas justificadas inseguranças. Não raro, espertos ilusionistas agenciam os fantasmas alheios a seu serviço – chamam nosso “lobo mau” e nos põem a serviço deles, dos ilusionistas. Cabe a nós, a todos e a cada um de nós, apreendermos a lidar com nossos fantasmas, não deixar que eles nos arrastem com eles para suas tumbas.
Sendo assim, cuidado consigo mesmo. Fique atento ao que mora nas sombras!
Nas sombras em você!
ISABEL GUIMARÃES

INVERNO DE 2013

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

AS PALAVRAS E OS OLHOS

Em uma tarde recente – acho que era quase noite – lia Manoel de Barros. Encantada! Naquele dia dormi cedo. Acordei no meio da madrugada pensando no oposto da poesia. Acho que foi por causa de um lugar onde tenho ido com alguma frequência. Lá, as pessoas falam quase estritamente através de fórmulas. Às vezes, ouço pessoas diferentes recitando as mesmas frases inteirinhas. É esquisito! Às vezes, vão além, como se lessem um script. As variações são mínimas.

Entendo o valor das fórmulas. Valor social. Fórmulas têm seu lado bom, garantidor de alguma civilidade, de um pouquinho de polidez. Algumas pessoas e grupos necessitam muito de fórmulas para lograrem conviver socialmente com um mínimo de “paz”. As fórmulas são o “único” ou quase único recurso de alguma civilidade para muita gente.

Certos ambientes – onde existem muita diversidade e disparidades – são propícios ao predomínio das fórmulas.

Mas continuo estranhando ambientes onde uma classe média abastada e com muitos anos de escolaridade se “comunica” quase exclusivamente utilizando frases feitas e coisas do gênero.



Fiquei pensando em dois dos poemas do Manoel de Barros que li e reli muitas vezes naquele dia. E, na mesma madrugada, batuquei uns nacos de pensamento no teclado do computador:



"Para entrar em estado de árvore é preciso

partir de um torpor animal de lagarto às

3 horas da tarde, no mês de agosto.

Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer

em nossa boca.

Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato sair na voz.



Hoje eu desenho o cheiro das árvores."

*

"Bernardo é quase árvore.

Silêncio dele é tão alto que os passarinhos

ouvem de longe

E vêm pousar em seu ombro.

Seu olho renova as tardes.

Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho:

1 abridor de amanhecer

1 prego que farfalha

1 encolhedor de rios - e

1 esticador de horizontes.

(Bernardo consegue esticar o horizonte usando 3

fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)

Bernardo desregula a natureza:

Seu olho aumenta o poente.

(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua

incompletude?)"



Manoel de Barros (O Livro das Ignorãças)



A ler Manoel de Barros, pelo excesso de poesia (mais acertado dizer “pela intensidade poética”?), vislumbro com clareza o oposto (da poesia) na sociedade. Não se engane! Não é a utilidade, a descrição ou a ciência. Na sociedade, nos homens: o apego às fórmulas - este é o oposto da poesia. E isto não é julgamento. Isto sim é descrição. Uma das forças em nós nos inclina à repetição. Há muita repetição – muitas repetições.

Repetição pode ser funcional – o é muitas vezes. Talvez, na maior parte. Assim como ruptura e deslize podem ser funcionais. As linguagens dependem de diferença... e repetição. Repetir padrões faz parte do processo evolutivo. Mas não precisamos ou devemos repetir todo e qualquer padrão... só porque um dia aquilo deu certo...

Repetir faz parte da vida!

Repetimos. Rezamos. Rezamos nossas fórmulas compulsivamente, à força de acreditarmos e de nos fazermos acreditar. Rezamos compulsivamente. Nossos rituais de exorcismo visam afastar o que em nós reside. Repetem fórmulas, sintagmas congelados em profusão. Exorcismo desesperado. Justo porque – percebemos – as palavras derivam. A cada passo engravidam. E os demônios em nós espreitam os deslizes. Se insinuam discretos, ávidos por exibirem-se em toda sua exuberância.

Fórmulas acalmam porque repetição – já experimentadas, conhecidas, familiarizadas, aplainadas, pasteurizadas, sossegadas. Nossa mente se fixa no mesmo percurso reto, certo. A repetição acalma, ilude o medo, disfarça o perigo que não queremos ver. Somos capazes de suportar a visão do perigo que nos assedia?

Pessoas repetem. Rezamos. Palavras esvaziadas – pela força da repetição –, desengravidam de mundos, de surpresas, de perigos. Desengravidam o medo, medo de nós mesmos, de contermos (ou de transbordarmos) o perigo. Perigo gestado, contido, incontido, transbordado de nós.

Tudo periga virar fórmula, repetição, reza. Porque o medo espreita. Porque os fantasmas pululam em nós. Porque nossos monstros nos chacoalham. De dentro para fora. As pessoas... NÓS! Nós não queremos ver os monstros. Porque, tal qual crianças, acreditamos na mágica dos olhos – na mágica da cegueira:

“o que não vejo não existe”.

Ou ainda:

“o que não vejo não me vê”.

O que seus olhos são capazes de suportar?

domingo, 23 de outubro de 2011


Preciso de um pedaço de papel
onde a palavra ganhe corpo,
carne,
onde a palavra ganhe cheiro.
Quero cobrir-me de letras, palavras,
abrigar-me.

Preciso da luz de uma única vela,
que ilumine sem gritar,
que aqueça sem queimar.
Uma luz cálida, amarela,
em que o corpo da palavra se proteja, se revele.

A chama quieta,
o claro-escuro da noite à luz de vela,
de uma única vela.
Os sons da noite,
a caneta a correr pelo papel (que resiste),
a respiração da palavra,
a respiração de minha mão,
o gesto,
a cópula
em quase silêncio.
Minha mão,
a caneta,
o papel,
o desenho da palavra,
corpo silencioso
à luz de uma vela,
uma única vela.

Preciso - impreciso sentido -,
quero,
busco (arrisco)
abrigar-me no corpo da palavra,
apesar de sua imprecisão.
Ou talvez, outra vez, justo por ela,
pelo amor implícito em sua aceitação.
Não precisa ser precisa.
Apenas preciso de seu corpo.
Quero copular com a palavra,
seu corpo,
sua beleza,
à luz de uma única vela,
luz cálida, amarela.

A beleza da sombra me assombra.
O mistério da sombra me acalma.
Não vale chorar o que se esconde.
Tatear na noite,
arriscar-se no escuro -
é o que vale.
O obscuro em mim
pede um dia de sol.